quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

DE TANTO BATER MEU CORAÇÃO PAROU





DE TANTO BATER MEU CORAÇÃO PAROU



Cada nova sensação, cada novo acontecimento nos surge como uma lufada de ar fresco num cotidiano permeado pelos mesmos odores que aprendemos a conhecer de cor. O cheiro da rotina. O cheiro do medo. O cheiro da certeza. Mas, subitamente, e por uns breves momentos, reaprendemos a respirar. O peito se abre. Os pulmões se enchem de ar e de esperança. E o coração, romantizado até à exaustão, ergue a sua batuta e define um novo ritmo. A vida começa onde o convencional acaba. Alegria. Tristeza. Amor. Dor. Experimentamos um pouco de tudo ao longo desta vida, ou pelo menos, tentamos. Corações expostos sem a armadura que só a vida constrói. A inocência da infância e da adolescência leva-nos a abrir o peito a tudo e a todos sem pensarmos nas infecções que provocam e que só o esquecimento ensina a sarar. Alguns batem somente para receber, como senhores de reinos místicos e desertos. Outros vivem em permanente saldo negativo, dando sem parar e jamais recebendo a recarga necessária à sua sobrevivência. Sempre me perguntei por que se associa o amor ao coração humano, em especial se considerarmos a diferença entre aquilo que pulsa dentro de nós e as suas desencantadas representações nos cantos das páginas que guardam os nossos segredos. Se amamos com o corpo todo, por que só o coração ganha o mérito? Mesmo destruído, se impõe como o vencedor. Talvez por que seja o único órgão sem o qual não podemos funcionar? Talvez. Ou talvez por que não passa de um emaranhado de sangue, nervos e convulsões, como tudo o que é autêntico? Provavelmente. Tudo em nós ama e só depois de mortos é que temos autorização para deixar de o fazer... somos seres orgânicos a quem foi concedida a bênção de pensar. Todo o resto é química, seja lá o que isso for. Por que sorrimos? Por que choramos? Por que contemplamos a nossa própria mortalidade? Por que amamos? Tudo é inexplicável e, talvez por isso, tão belo... Procuramos significados onde não existem. Exigimos que nos apresentem um roteiro que possamos seguir indiscutivelmente. Voamos sem asas. Sonhamos sem dormir. Amamos sem sentir. As fórmulas científicas de nada servem. Aquilo que sentimos ultrapassa a nossa vontade. Vivemos presos. Alguns, prisioneiros dos seus pensamentos, outros dos seus sentimentos. Sofrimento inglório, impossível de combater.De tanto bater o meu coração parou. Bateu vezes demais e eu nunca deixei de lhe exigir mais e mais. Cada paixão, cada expectativa, cada sonho o levava ao limite de batidas. Depois, a realidade batia à porta e me obrigava a tropeçar e, por uns instantes, era-lhe permitido descanso. Até que certo dia ele se apoderou do meu calendário, e, desde então, uma sobrecarga de emoções obrigou-o a parar. As coisas boas misturaram-se com as más e tudo deixou de fazer sentido. Ainda revejo e sinto o último batimento. Depois nada... E a brisa transformou os dias em semanas que cresceram para meses. Nada... Os elogios tinham gosto de areia. No peito nada se mexia. Os beijos faziam comichão no céu da boca. No peito nada se mexia. Os golpes, por mais dolorosos e profundos que fossem, eram mastigados como chicletes e deitados fora antes de perderem o sabor. Mas no peito tudo permanecia no mais profundo silêncio. Até que surgiu a recarga elétrica que parecia fraca demais para reanimar fosse o que fosse. De repente, gritaram-se palavras de amor. O corpo agitou-se na sua infinita dança de sedução. Ambos exigiram que aquele saco de sangue amorfo e ridículo renascesse. Uma batida de cada vez. O compasso de uma música sem fim à vista. E assim, o que jazia morto se reergueu. Acordou, olhou em volta, e apesar de não ter gostado do que viu, insistiu em continuar a sua música. Mas, como tudo o que regressa, voltou diferente do que quando partiu. Bate agora frágil, meio vazio e desconfiado. Mas bate... e segue batendo. Numa fração de segundo que durou uma vida, o meu coração parou. Até que se lembrou de que nasceu para bater e decidiu que só pararia quando não houvesse nada no mundo pelo qual valesse a pena cantar a sua melodia. Ainda há muitas conquistas e mágoas por comandar. Quando já nada mais houver para sentir, então aí terá chegado a hora do descanso merecido e duradouro. Até lá... apenas viver. Batimentos ritmados... pulsações descompassadas... melodias excêntricas e incertas... até o fim... até o último acorde vibrar... até a música deixar de ter história e as notas perderem o som...



Mensagens de Amor

Um comentário:

Jorge disse...

Este teu texto está fantástico...

Beijinho, Renata!